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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cresce a participação de JBS, Marfrig e Minerva no volume de abates

No ano que passou, as três maiores empresas de carne bovina do Brasil, JBS, Marfrig e Minerva, foram responsáveis por 35,64% dos abates formais de bovinos do país. Em 2009, haviam alcançado, juntas, uma fatia bem menor, de 21,81% dos abates. O aumento do percentual reflete a concentração do segmento de frigoríficos, que se acirrou nos últimos dois anos, após a crise financeira global de 2008.

Em dificuldades, mais de uma dezena de frigoríficos de carne bovina do país pediram recuperação judicial, outros tiveram de se unir a empresas mais sólidas e alguns, ainda, acabaram arrendando ativos, afastando-se dos negócios.

Segundo o IBGE, em 2010 os abates formais de bovinos no país somaram 29,265 milhões de cabeças, 4,3% mais que no ano anterior. Num ano de oferta ainda escassa de matéria-prima, a avaliação de analistas é que parte desse crescimento também se deve à própria formalização do abate. Estimativas não oficiais indicam que o abate total - incluindo o informal - é de quase 40 milhões de bois por ano.

Em todo o ano passado, a JBS, maior empresa de carne bovina do mundo, abateu 6,48 milhões de bovinos no país. O número é bem superior (91,2%) aos 3,388 milhões de cabeças de 2009. A razão é a aquisição da Bertin Alimentos pela JBS, no último trimestre de 2009. Com isso, a fatia da JBS nos abates do Brasil atingiu 22,15% em 2010 - fora de 12% um ano antes, conforme cálculos baseados nos abates formais nacionais e nos da companhia antes da aquisição da Bertin.

Os números de abate da JBS em 2010 são estimados porque a empresa divulga os dados do Brasil junto com os outros países do Mercosul. Considerando todas as unidades do bloco - além de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai -, o abate de bovinos da JBS em 2010 foi de 6,819 milhões de cabeças.

Segunda maior empresa de carne bovina do Brasil, a Marfrig também ampliou sua fatia nos abates brasileiros. No caso da companhia, isso ocorreu após o arrendamento de 12 unidades de abate de bovinos dos frigoríficos Margen e do gaúcho Mercosul, também no fim de 2009. Os abates saíram de 1,57 milhão em 2009 para 2,65 milhões ano passado. A participação no total foi de 5,6% para 9%, também de acordo com cálculos levando em conta os números divulgados pela companhia e pelo IBGE.

Outro grande produtor de carne bovina, o Minerva abateu 1,170 milhão de cabeças de gado no país em 2009. No ano passado, o número passou para 1,305 milhão, elevando a fatia da empresa no total nacional de 4,16% para 4,45%.

Os números mostram que ainda há pulverização nos abates no país, mesmo que a participação das maiores companhias seja expressiva, especialmente a da JBS. Mas a situação já foi diferente. Nos idos de 2005, antes da onda de abertura de capital do setor na bolsa - e quando já havia grande oferta de crédito no mercado para os frigoríficos -, a participação das empresas no abate era mais equilibrada.

José Vicente Ferraz, da Informa Economics FNP, estima que a fatia de cada uma das grandes ficava na casa de 12%. Naquela época, estavam entre as consideradas grandes, além da JBS, Bertin, Independência e Margen.

A mudança no cenário foi causada não apenas pela crise de 2008. A oferta elevada de crédito para o setor de frigoríficos acabou contribuindo para que algumas empresas entrassem em dificuldades, pois se alavancaram e ampliaram a capacidade de abate de bovinos no país num período de baixa de ciclo de produção de gado.

Essas vicissitudes levaram a uma verdadeira peneirada no setor, e a redução no número de players no mercado gerou, desde o início, o descontentamento de pecuaristas, que têm menos opções de venda. "A concentração reduz a força do pecuarista", avalia Ferraz.

O analista admite um lado positivo para os fornecedores: "Os grandes têm base financeira melhor. Não quer dizer que estejam imunes [a problemas], mas é mais difícil acontecer uma surpresa desagradável", afirma ele.

Uma fonte do segmento, que prefere não se identificar, afirma que a concentração gerou ganhos de escala e eficiência, o que permite preços mais vantajosos ao consumidor. "O mercado se concentra numa reação ao aumento dos custos de produção", resume.

O diretor-presidente do Minerva, Fernando Galletti de Queiroz, observa que o aumento da participação da companhia nos abates nacionais decorreu do crescimento orgânico, diferentemente das outras empresas que avançaram por conta de aquisições.

Queiroz faz uma ressalva: além dos próprios abates, o Minerva também adquiriu cortes bovinos de concorrentes no mercado para processamento no ano passado. Assim, diz, considerar apenas os abates pode gerar distorção. Na avaliação do executivo, a consolidação do segmento é positiva porque gera empresas mais sólidas e saudáveis financeiramente, além de mais competitivas.

James Cruden, diretor de operações da Marfrig, diz que além dos arrendamentos de Margen e Mercosul, a diminuição das operações de concorrentes também contribuiu para que a empresa elevasse seus abates. Ainda que o número de empresas no mercado tenha se reduzido, Cruden avalia que os pecuaristas não estão sem alternativas para vender. Além das três grandes, contam também com empresas regionais de menor porte.

Os números do abate de bovinos podem ser indicadores da concentração no setor, mas não são os únicos. Os dados de exportação de cada empresa também revelam muito. No ano que passou, a JBS foi a 15º no ranking dos exportadores do Ministério do Desenvolvimento. A Seara, da Marfrig, ficou em 29º, o Minerva em 32º, a Marfrig em 38º e a Bertin, da JBS, em 50º. É preciso considerar, porém, que as exportações incluem, além de carne bovina, outras carnes e itens (como couro e bovinos vivos) vendidos pelas companhias.

Pode se dizer que a estrutura da cadeia de produção da carne bovina no país se aproxima de um oligopsônio (número pequeno de compradores), mas o poder de mercado dos frigoríficos sobre os pecuaristas é moderado e não aumentou nos anos recentes, apesar da maior concentração no setor. Essa é a conclusão de estudo "O Oligopsônio dos Frigoríficos: Uma Análise Empírica de Poder de Mercado", do pesquisador Rodrigo Moita, do Insper, e da aluna de mestrado do instituto, Lucille Golani.

O estudo analisou a cadeia de carne bovina em São Paulo e avaliou se há poder de mercado utilizando informações sobre a produtividade marginal do boi gordo e dados mensais de preços por um período de 14 anos no Estado. Um dos objetivos dos pesquisadores foi mostrar se o aumento recente da concentração no setor de frigoríficos alterou o padrão de concorrência do setor.

Para testar a existência de poder de mercado, os pesquisadores usaram um modelo econométrico, contendo variáveis como preços mensais da carne de traseiro no atacado, preços mensais do boi gordo e estimativas sobre a produtividade do boi e a elasticidade-preço da oferta de matéria-prima.

A análise da cadeia produtiva mostrou que os produtores rurais - que fornecem bois - são muitos e distribuídos pelos principais Estados produtores. Os frigoríficos, por seu lado, são grandes e poucos e concentram suas plantas nos Estados produtores de bovinos e em São Paulo, maior mercado consumidor. Essas são características de uma estrutura de oligopsônio.

Utilizando preços mensais levantados pelo Instituto de Economia Agrícola (IEA) entre julho de 1994 e dezembro de 2008 no Estado de São Paulo, os pesquisadores estimaram o que chamam de "modelo de conduta oligopsônica" no mercado. "Os resultados mostram forte evidência de poder de mercado moderado. Apesar de ter uma estrutura com potencial para o exercício de poder de mercado, os resultados mostram poder de mercado compatível com um oligopsônio. (...) Além disso, não identificamos um aumento do poder de mercado em anos recentes. O que indica que a onda de fusões e aquisições no setor frigorífico não teve reflexo na conduta das firmas", escrevem.

De acordo com Rodrigo Moita, o estudo mostrou semelhança entre o ritmo de alta do boi gordo e da carne durante o período analisado. "Imaginávamos um crescimento do preço da carne maior que o do boi gordo", disse. "Acreditávamos que haveria alguma distorção", reitera Lucille, cujo pai, pecuarista, sempre se queixou da relação comercial com os frigoríficos.

Segundo Moita, a expectativa era que "com a maior concentração do setor, o frigorífico obrigaria o produtor de gado a vender [animais] por preços mais baixos". Uma hipótese, diz o pesquisador, é que isso não ocorreu porque o setor buscou se preservar já que tinha sido alvo de investigação por formação de cartel e de processo no Cade. Outra razão para as margens do frigorífico não mostrarem crescimento, afirma ele, é o aumento da competição entre os grandes frigoríficos.

Lucille admite que a falta de dados semelhantes em outros Estados restringiu a pesquisa a São Paulo. Moita avalia que o resultado do estudo não seria muito diferente se considerasse outros Estados produtores de carne bovina porque São Paulo é uma região formadora de preços, portanto, relevante.

Ainda que o estudo não considere dados dos últimos dois anos, quando a concentração no setor se acirrou, Moita não acredita em alterações no resultado apontado pelo estudo. "O que se observou até 2008 é que o aumento da concentração não teve efeito no poder de mercado. Se seguir essa tendência que o estudo aponta, não deve haver alteração no cenário", conclui.

A matéria é de Alda do Amaral Rocha, publicada no Valor Econômico resumida e adaptada pela Equipe BeefPoint.

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