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segunda-feira, 4 de julho de 2011

Cartões próprios de lojas empurram até plano de saúde


Ao passar pelas lojas das principais redes varejistas do país, o consumidor costuma ser abordado por vendedores oferecendo os cartões de bandeira própria (também conhecidos como private label). O grande atrativo dessa modalidade de pagamento é a possibilidade de descontos em determinados produtos, além de outros benefícios em empresas parceiras. O cartão pode ser uma boa alternativa para clientes conscientes, mas um veneno para os descontrolados.
Especialistas acreditam que essa modalidade de pagamento tem, ao menos, três problemas graves: a facilidade de crédito, que pode levar o consumidor ao superendividamento; as armadilhas embutidas nos contratos, que têm taxas de juros salgadíssimas nos parcelamentos de longo prazo; e a enxurrada de serviços adicionais empurrados aos clientes, como Seguros, títulos de Capitalização e até convênios de Saúde. Sem contar que vários deles cobram taxa de anuidade, que engole parte da vantagem de parcelar em número maior de vezes, sem juros, ou com algum desconto.
 
A utilização dos cartões de bandeira própria já corresponde a uma parcela notável do setor. Dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) mostram que, no ano passado, essa modalidade movimentou R$ 68,5 bilhões — o que corresponde a 12,64% de todas as transações do segmento, que foi de R$ 541,9 bilhões. Nos primeiros três meses deste ano, o crescimento desses cartões foi de 16%, na comparação com igual período em 2010. Os números justificam a importância que o setor varejista dá para essa forma de pagamento.
 
“Além de fidelizar o cliente, esse tipo de cartão é um instrumento importante para quem ainda não tem acesso a um meio de pagamento bancário”, lembrou o vice-presidente da Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviço (Abecs), Paulo Rogério Caffarelli. Segundo ele, essa modalidade de pagamento possui dois tipos de serviços distintos. Além dos cartões híbridos — que são emitidos por uma determinada rede varejista, mas também aceitos em outros estabelecimentos —, existem aqueles que só são recebidos em uma determinada loja, fornecendo prazos maiores de pagamento e descontos.
 
Entretanto, o consumidor precisa saber como utilizar esse tipo de cartão a seu favor. De acordo com o especialista em finanças pessoais Altemir Farinhas, algumas situações fazem com que a modalidade seja um bom negócio. “Se, por exemplo, uma pessoa quiser comprar um presente, e for receber seu pagamento 20 dias após essa compra, usar o cartão será vantajoso. Mas ela precisa comprar com alguma frequência naquele estabelecimento. Não compensa para quem realiza compras esporádicas”, explica o consultor. Por isso, é sempre fundamental que o consumidor, antes de aceitar o cartão, descubra se ele possui tarifas de manutenção ou anuidade. A cobrança dessas tarifas varia de acordo com a loja emissora.
 
Ele ressalta que muitas pessoas acabam se deixando levar na hora de conseguir o crédito. “É do interesse da loja que o consumidor realize as compras o mais rápido possível, por isso, há tanta agilidade na liberação”, constata Farinhas. Não por acaso as carteiras dos consumidores brasileiros estão recheadas desses plásticos. “Estamos chegando a uma média de quatro cartões por pessoa. É um número razoável, mas ainda distante de países como Estados Unidos, onde os clientes chegam a ter 14 cartões”, analisa.
 
Para Reinaldo Domingos, presidente do Instituto Dsop de Educação Financeira, é importante que o consumidor tenha seu orçamento estruturado antes de botar as mãos nos cartões de lojas. “O ideal é que o consumidor não tenha um cartão com limite de crédito superior a 50% do seu salário. Essa margem é que vai limitar os gastos e fazer com que ele consiga honrar seus compromissos”, ressalta. Muitas pessoas perdem o controle porque só se preocupam com o valor de cada parcela e se ela cabe no orçamento atual — e acabam perdendo dinheiro por isso. “A pessoa fica encantada com a possibilidade de compra naquele momento, mas esquece que vai precisar pagar aquilo por vários meses. É por isso que a pessoa acaba endividada e perde o controle dos gastos”, avalia.
 
Outro ponto de atenção dos cartões de selo próprio é a taxa de juros praticada na modalidade, que, na maioria das redes varejistas, é de pelo menos 6% ao mês. “O sistema de crédito é voraz. As instituições vivem dos juros. Por isso, é fundamental ter o domínio pleno do cartão, que pode ser um instrumento facilitador ou uma grande dor de cabeça, dependendo da postura do usuário”, compara Domingos. Se o consumidor estiver em atraso ou atolado em dívidas desse meio de pagamento, a recomendação é que ele faça um diagnóstico de seu atual orçamento e cogite realizar outra modalidade de empréstimo, com juros menores, e fazer a troca da dívida.
 
Apesar de ser um instrumento que pode ser vantajoso para o consumidor, o ímpeto das redes varejistas em buscar novos clientes ultrapassa a barreira do razoável. O Correio visitou lojas das principais redes de vestuário e de alimentos do país que administram seus próprios cartões e constatou que a facilidade na emissão dos plásticos abre caminho também para as fraudes. Em pelo menos duas lojas, apenas os números de RG e CPF eram necessários para conseguir uma pequena linha de crédito. A apresentação de comprovante de renda e de residência facilitaria a liberação, mas não chegaria a ser um requisito obrigatório.[2]
 
Além disso, produtos financeiros passam por uma maquiagem e são vendidos aos clientes que, desavisados, acabam levando gato por lebre. Seguros que garantem o pagamento de prestações em caso de acidentes pessoais ou demissões são empurrados aos clientes. Em alguns casos, o mesmo seguro permite concorrer a prêmios, com sorteio baseado na loteria federal, semelhantes a títulos de Capitalização, mas sem resgate do valor pago. Em uma das lojas visitadas pela reportagem do Correio, até plano odontológico costuma ser oferecido aos clientes. Ou seja, já é possível entrar em uma loja interessado em adquirir um novo enxoval e sair de lá com seguro de vida e serviços de Saúde — por mais estranho que isso pareça.

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