Total de visualizações de página

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

'Big Brother' do sistema financeiro acompanha o mercado de crédito


TREMOR GLOBAL: Autoridade monetária vai cruzar renda com empréstimo
Central de Risco do Banco Central vigia todos os financiamentos concedidos

BRASÍLIA. Com uma lupa ainda mais poderosa, a partir deste mês o Banco Central (BC) vai passar a acompanhar novos detalhes do mercado de crédito do país, que nunca foi tão grande, como mostram os dados divulgados pelo governo semana passada. Além de vigiar todos os financiamentos concedidos pelas instituições financeiras e não financeiras, o BC pretende comparar os empréstimos com as diversas faixas de renda dos brasileiros endividados e seus limites de cartão de crédito e cheque especial. Só assim poderá ter certeza de qual é a verdadeira capacidade de endividamento das pessoas. A novidade só será possível porque o BC inaugura este mês a segunda fase da sua Central de Risco de Crédito, uma espécie de "Big Brother" do sistema financeiro.
Criado em 1997, no auge das crises econômicas que o Brasil atravessava, esse sistema de dados - agora com um potencial ainda maior de armazenamento de informações - é hoje um dos antídotos contra os efeitos de turbulências tanto dentro quanto fora do país. Funciona como um termômetro de como cidadãos comuns e empresas se comportam e como suas dívidas, ou a falta de capacidade para honrá-las, podem afetar a economia como um todo. Hoje, o limite das operações acompanhadas pelo BC é de R$5 mil. Quando começou a funcionar, só analisava operações acima de R$50 mil.
Sistema deve evitar endividamento excessivo
Mas, em um segundo momento, a partir do ano que vem, este valor deve cair para R$1 mil, como defendem membros da diretoria do banco. Isso significa que, em vez dos atuais 250 milhões de registros referentes a 63 milhões de clientes que acompanha por mês, o BC passará a monitorar nada menos que 1,2 bilhão de dados mensais. O novo sistema, mais robusto, também vai permitir que essas informações, atualmente processadas em dez dias, ainda que mais numerosas, possam ser analisadas em apenas dois dias.
Apesar da explosão do crédito no país - 47,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em junho, o maior patamar da série iniciada em 1988 - o BC não vê bolhas no mercado e atribui o crescimento rápido a uma demanda reprimida de muitos anos. Tampouco identifica risco no setor imobiliário, que, embora tenha aumentado por causa dos preços cada vez mais altos de imóveis em várias capitais, ainda tem um volume muito inferior ao verificado em outros países. Mesmo assim, é com base nesse monitoramento que o BC pretende adotar medidas para proteger o consumidor. Recentemente, criou algumas normas para apertar o crédito (para a compra financiada de motos usadas, por exemplo) por causa dos movimentos que via pela central.
Segundo fontes da instituição, quando puder acompanhar os financiamentos menores, o BC poderá exercer uma função mais social, impedindo que pessoas de baixa renda se comprometam além do limite razoável. Embora sejam numerosas, estas operações não correspondem a uma fatia muito grande do mercado. Hoje, as transações monitoradas são 90% do total emprestado.
Mantida em uma sala-cofre na sede do banco, em Brasília, a central de risco mantém disponíveis 24 horas por dia todas as informações necessárias para o BC em várias telas de computador, distribuídas em uma sala com um grande painel de controle. Somente pessoas autorizadas têm acesso ao salão. Estranhos podem, no máximo, ser levados a uma sala vizinha, onde, ao se apertar um botão, uma de suas paredes opacas se torna transparente e exibe a movimentação. A cada corredor atravessado, são exigidas impressão digital e crachá dos funcionários.
A central de risco brasileira é hoje um diferencial do país. Não existe nada parecido na Europa, onde vários bancos receberam notas baixas e continuam na corda bamba sob efeito da crise financeira global, que insiste em aterrorizar os europeus.
Apesar do aumento da taxa de juros cobrada dos consumidores e empresas nos últimos seis meses, o crédito cresceu 20% nos 12 meses encerrados em junho. O crédito imobiliário subiu 50% no mesmo período. Por mais que a central de risco não identifique problemas no horizonte do mercado de crédito, o ritmo continua acima dos 15% considerados saudáveis pelo presidente do BC, Alexandre Tombini, para não pressionar excessivamente os índices de preços da economia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário