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domingo, 21 de agosto de 2011

O verdadeiro caminho do sucesso


Rico, sem patrão e com tempo de sobra. Ao contrário do que se imagina, a vida de empreendedor tem muito mais facetas do que sugere esse bordão

Por Eduardo Nunomura e Wilson Gotardello Filho
Filipe Borin

Empreendedores lendários - e solitários -, que fugiram dos bancos escolares e construíram fortunas com pouco ou nenhum capital, contando apenas com suas próprias ideias brilhantes e a coragem de pôr todas as fichas em um negócio incerto. É essa a imagem que vem à cabeça da maioria quando se pensa em homens bem-sucedidos, como Steve Jobs, da Apple, Bill Gates, da Microsoft, ou Samuel Klein, das Casas Bahia. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, a representação do self-made man é tão forte que praticamente nos furtamos a observar de perto a história de cada um. Sob os holofotes, contudo, o que se vê são versões bem menos glamourosas, como bem mostrou um recente estudo da dupla de pesquisadores franceses Michel Villette e Catherine Vuillermot (leia a entrevista exclusiva aqui), que resultou no livro From Predators to Icons. As conclusões da obra também serviram como matéria-prima para um brilhante artigo do escritor Malcolm Gladwell (autor dos best-sellers Fora de Série: Outliers e Blink), publicado na revista New Yorker e, agora, em primeira mão no Brasil, por Pequenas Empresas & Grandes Negócios.
SAIBA MAIS
Embora seja visto como um Leonardo da Vinci moderno, Steve Jobs construiu uma das empresas mais inovadoras de todos os tempos contando com uma poderosa rede de relacionamentos, da qual fazia parte o seu grande amigo Steve Wozniak. A maioria das inovações da Apple foi feita em parceria com várias outras empresas. Muito mais que um geninho dos computadores, Bill Gates sempre se considerou um ótimo negociador. O homem que conseguiu se tornar um dos mais ricos do mundo é neto de banqueiro e contou com a ajuda do sócio Paul Allen para realizar suas façanhas. O polonês Samuel Klein, rei do varejo brasileiro, ao chegar ao Brasil acionou seus contatos para adquirir uma valiosa carteira de 200 clientes de um mascate judeu que estava prestes a se aposentar. O autor do livro The Illusions of Entrepreneurship, Scott Shane, defende a ideia de que apegar-se ao senso comum é o caminho mais curto para o fracasso. "Quando as pessoas agem baseadas em histórias com toques fictícios, pensando que se trata da mais pura realidade, acabam se dando mal."
Ricardo Labastier
"Queria dar aulas. Mas o negócio foi tão bem que não me imagino fazendo outra coisa"
THAIS MELO E GUILLAUME PETITGAS, LA BOULANGERIE A estudante de letras e o padeiro francês resolveram voltar a morar no Brasil após uma temporada na Europa. Sem emprego, a saída foi abrir o próprio negócio. Os dois driblaram a inexperiência com cursos. Em três anos, o casal abriu uma segunda loja e, hoje, recebe mais de 300 pessoas por dia
Muitos empreendedores começam subcapitalizados, mas raros são os que, nessa situação, obtêm sucesso - quando isso ocorre, viram objeto de estudo acadêmico e capas de revista, ajudando a criar a ideia equivocada de que bons negócios sempre nascem em garagens. Pesquisas mostram que ter dinheiro para o investimento inicial facilita enormemente o caminho, argumenta Shane. Também são distorcidas pelo menos outras sete imagens do empreendedorismo: empreendedor nasce empreendedor (o que determina o sucesso não é a genética, e sim o ambiente e o esforço individual); não é preciso educação nem experiência para montar um negócio (empresários sem bagagem são os que mais dão errado); o empreendedor age sozinho (mas quanto melhor a rede de contatos, maiores as chances de sucesso); empreender é arriscar (quem vai longe sabe da importância de calcular e minimizar riscos); empreender é ficar livre (na realidade, trabalha-se muitas vezes mais e é preciso dar satisfação a fornecedores, funcionários, clientes...); é preciso uma ideia genial para abrir uma empresa (a maioria dos negócios é trivial); todo empreendedor é rico (normalmente, o retorno sobre o investimento inicial demora a acontecer).
Marcelo Corrêa
"Só cheguei aonde estou por conta da experiência acumulada durante vários anos"
MARCELO ROCHA, DA F2C O ex-funcionário da Oracle se juntou a outros quatro colegas e fundou a F2C, especializada em softwares complementares aos da gigante americana. Cada um dos sócios conhece bem uma área: banco de dados, desenvolvimentos, finanças, suprimento e comercial. Neste ano, a F2C deve faturar R$ 30 milhões, ante R$ 19 milhões de 2009
Acreditar que o empreendedor é um sujeito brilhante, que consegue fazer fortuna sem esforço, apenas mantém seres humanos comuns distantes do sucesso: eles se intimidam com a figura do super-herói e desistem de empreender ou então o fazem sem planejar - e, como não existem capas voadoras e superpoderes, acabam tombando. Aqueles que vêm se dando bem em seus empreendimentos não se deixam iludir. A empresária Thais Melo, de 29 anos, dona da La Boulangerie, por exemplo, nunca havia cogitado ser mulher de negócios, até o dia em que viu que seria muito difícil para o marido francês, Guillaume Petitgas, 28 anos, conseguir um posto de trabalho no Brasil. "Eu sempre me imaginei lecionando, e não vendendo pães, mas o nosso negócio deu tão certo que, hoje, não penso em fazer outra coisa", diz. Cursos de gestão, marketing, empreendedorismo e a ajuda de parentes e amigos supriram a sua suposta falta de talento nato para os negócios.
Três anos após a decisão de empreender, Thais e Petitgas têm duas badaladas padarias em Brasília, contam com 56 funcionários e atendem 300 consumidores diariamente, cada um gastando em média R$ 18. Empreendedor nasce empreendedor? "Não há nenhum estudo que comprove essa tese", diz Shane. Algumas características são comuns aos donos de negócios, mas elas podem ser adquiridas. "Nunca vi nenhuma evidência de que exista um DNA empreendedor", afirma Jacques Marcovitch, professor da USP e autor de uma trilogia de livros que destrincha a história dos empresários pioneiros no Brasil (como Leon Feffer e Valentim Diniz, fundadores, respectivamente, dos grupos Suzano e Pão de Açúcar). "O ambiente é essencial. O que eu percebi nos casos em que estudei é que eles forjaram sua personalidade empreendedora ao enfrentar adversidades."
Omar Paixão
"Meu ex-sócio entrou com o capital necessário e me ensinou todos os segredos"
MARCELO PONZONI, DA RAE, MP Fundou a agência publicitária aos 22 anos, com US$ 22.500 emprestados por um amigo de sua mãe, que também cedeu uma sala para a empresa. Hoje, instalado em uma sede de 700 metros quadrados, administra 30 contas. Faturou R$ 6,5 milhões no ano passado
Naqueles tempos, eram comuns histórias de imigrantes que faziam fortuna ao desbravar novas terras. Gente sem dinheiro ou educação. Hoje, essas histórias são exceções. "Esses mitos estão bastante desatualizados", diz Shane. Não que seja impossível montar um negócio sem dinheiro, escolaridade ou experiência. Mas o caminho quase sempre é mais árduo e arriscado. Levantamento do Sebrae na Junta Comercial do Estado de São Paulo, entre 2000 e 2005, revela que os donos de empresas que quebraram ou decidiram fechar as portas têm menos repertório do que aqueles que permanecem no mercado. Por exemplo, planejaram a abertura do negócio por quatro meses, em média, enquanto aqueles que ainda estavam à frente dos empreendimentos se prepararam por 14,1 meses. Entre os que não deram certo, também, 46% tinham experiência na área em que abriram negócio e 34% haviam realizado cursos de gestão - enquanto, nos negócios duradouros, 64% conheciam o setor e 41% fizeram aulas específicas de administração. Formado em computação pela Universidade Federal Fluminense, Marcelo Rocha, 44 anos, passou oito anos trabalhando com um programa da americana Oracle, cinco na própria multinacional, antes de montar com dois colegas a empresa de softwares F2C, do Rio de Janeiro. "Percebemos que existia um mercado não explorado de funcionalidades complementares ao software da empresa." Primeiro, resolveram oferecer o serviço pela internet, sem deixar o emprego. Em 2004, quando conquistaram o primeiro grande cliente, a fabricante de lentes Essilor, pediram demissão e convidaram outros dois ex-funcionários para ser sócios. Cada um deles é especializado em uma área específica do software - banco de dados, desenvolvimento, finanças, suprimentos e comercial. O faturamento da F2C, que foi de R$ 500 mil no primeiro ano, alcançou R$ 4 milhões em 2007, R$ 8,5 milhões em 2008, R$ 19 milhões em 2009, e, neste ano, a previsão é de R$ 30 milhões.
SAIBA MAIS
Calcular a reserva financeira necessária para sustentar o negócio nos primeiros anos também é providencial. Mas nem sempre o investimento precisa vir do bolso do próprio empreendedor. "A família e os amigos costumam ter papel fundamental no financiamento", diz Afonso Cozzi, professor de empreendedorismo da Fundação Dom Cabral. O empresário Marcelo Ponzoni, 44 anos, apoiou-se em um amigo de sua mãe para abrir a agência de publicidade RAE, MP. Ronaldo Arthur Esperança, dono de uma revenda de carros em São Paulo, entrou com os US$ 22.500 necessários e virou sócio de Ponzoni quando este era um jovem de 22 anos e ainda cursava a faculdade de publicidade em Mogi das Cruzes. A revenda de Esperança e de outros conhecidos do empresário foram os primeiros clientes da nova agência. "Além do apoio financeiro, o Ronaldo me ensinou muito", diz Ponzoni, que hoje atende a 30 contas, a maioria de concessionárias, shopping centers e indústrias, e fatura R$ 6,5 milhões ao ano. Depois de dois anos e meio, Ponzoni adquiriu os 50% da sociedade de Esperança. Logo depois, o ex-sócio morreu. Ponzoni afirma que faz questão de passar ao filho de 13 anos, batizado de Ronaldo Arthur, as lições aprendidas com o amigo. "Ele me fez acreditar que era possível", diz.
"Eu só tive coragem de abrir a empresa porque tenho amigos experts no assunto "
FABIO SIDNEY ANTÔNIO, DA FDM CONSULTING Admite que não teria feito nada, não fosse sua valiosa rede de relacionamentos. Ao longo da sua carreira, de onde partiu como vendedor até chegar a diretor comercial, ele cultivou contatos que, mais tarde, se tornaram seus clientes, fornecedores e funcionários
As histórias de Ponzoni e de Rocha remetem a outro dos vários mitos que rondam o empreendedorismo: a ideia de que o empreendedor faz tudo por sua própria conta e risco, sem contar com a ajuda de ninguém. "O bom empreendedor analisa as características que tem e as que não tem, mas são necessárias, e se cerca de pessoas que o complementam", afirma Marcelo Salim, coordenador do centro de empreendedorismo do Ibmec-RJ. Reportagem publicada na prestigiada revista The Economist chegou à conclusão de que o "empreendedorismo é uma atividade social", ou seja, empreendedores quase sempre precisam de redes de contatos muito bem estruturadas para se dar bem. O que realmente impulsionou os negócios de Fabio Sidney Antônio, 38 anos, dono da FDM Consulting, foram os seus relacionamentos. Por cinco anos ele trabalhou de vendedor, até chegar ao cargo de diretor comercial no setor de telefonia e internet. Durante esse período, construiu contatos que se tornaram decisivos quando ele abriu o seu próprio negócio, em 2005. "Meus amigos, fornecedores e clientes da época me ligaram para trabalhar comigo." Hoje, sua empresa de soluções de infraestrutura de rede fatura R$ 9 milhões e tem cerca de cem clientes, como Lojas Marisa e Magazine Luiza. "Um novo negócio nasce de um sonho. Daí se criou o mito de que o empreendedor age sozinho", afirma Enio Pinto, gerente nacional de atendimento do Sebrae. "Empreender é o ato de sonhar e realizar. O sonho é individual, mas quem não sabe se relacionar com os outros não realiza nada."
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Com a influência crescente dos empreendedores de tecnologia, muita gente pensa que esse sonho de negócio precisa ser uma ideia sensacional. E fica esperando a vida inteira pelo lampejo. O último estudo do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), a fonte mais completa sobre a realidade dos empreendedores, mostra que mais de 80% das empresas brasileiras não oferecem produtos novos ao mercado. "O empreendedor precisa de uma oportunidade, antes mesmo de ter uma grande ideia", diz Tales Andreassi, coordenador do Centro de Empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas. "Um grande invento pode facilitar o sucesso de um negócio, mas há fatores mais importantes para iniciar um empreendimento", acrescenta Simara Greco, do Instituto de Qualidade e Produtividade, responsável pelo relatório GEM do Brasil. Segundo a reportagem da The Economist, a inovação costuma se dar em processos e não em produtos. Felício Borzani Neto, 50 anos, encontrou a sua oportunidade quando sua mulher, Suzana, voltou de uma viagem aos Estados Unidos maravilhada com um negócio que nunca tinha visto no Brasil. Era uma loja que personalizava bichos de pelúcia com roupas escolhidas pelas crianças. O casal descobriu que o produto já havia sido implantado no Brasil, mas fracassara, e o ex-dono estava vendendo o equipamento e todo o estoque. Os Borzani contrataram uma agência de publicidade e se esforçaram para criar quiosques chamativos. A experiência de Borzani Neto em um emprego na área de vendas foi essencial. A Happy Town, inaugurada em 2005, fatura hoje R$ 12 milhões ao ano e tem 30 lojas. "Um projeto com começo, meio e fim, bem planejado, tem mais chance de vingar", diz o empreendedor. Para vender mais, a empresa depois aumentou as possiblidades de personalização dos brinquedos, permitindo a escolha de vozes e perfumes. Inovações como essas exigem capital, e, por isso, costumam acontecer em um momento de maior maturidade do negócio.
Omar Paixão
"Sempre soube que não bastava ter um ótimo produto na mão se não soubesse vendê-lo"
FELICIO BORZANI NETO, DA HAPPY TOWN Era vendedor antes de se tornar empresário. Percebeu a oportunidade de relançar uma marca dos Estados Unidos no Brasil e investiu na imagem do negócio. Hoje, a empresa, sediada em São Paulo, tem 30 lojas no Brasil e fatura R$ 12 milhões por ano
Antes de montar a Happy Town, Borzani Neto tivera outros negócios - uma loja de roupas multimarcas e oito franquias de empresas diferentes, tocadas ao mesmo tempo. Todas faliram. "Nós, empresários, temos o costume de usar a intuição para fazer negócios, achamos que podemos tudo e nunca vamos errar", diz. "Percebi que tinha de ir com mais cautela." Correr muitos riscos não é uma característica inevitável do empreendedorismo. Ao contrário. Crucial para o sucesso é saber administrá-los. O ex-trader em títulos da dívida externa Daniel Heise, 37 anos, é um especialista em gerenciar riscos. Em 1999, no auge da bolha das pontocom, ele deixou o emprego no banco Matrix, e, com dois sócios, criou uma empresa de projetos para a internet. Investiu em 12 negócios de tecnologia. O que poderia parecer uma jogada arriscada era um negócio milimetricamente calculado por Heise. "Imaginava que, dos 12 projetos, dois seriam um sucesso e dois um grande fracasso. Os outros oito dariam pouco lucro ou um prejuízo mínimo", diz. Foi o que aconteceu. Em pouco tempo, Heise e os sócios identificaram os dois melhores negócios: a Customer First, que desenvolvia softwares para atendimento ao cliente, e a Atrativa, de jogos on-line. Os projetos restantes foram descontinuados.
Em 2006, a Atrativa foi vendida e se transformou na empresa norte-americana Playphone - na qual Heise mantém participação acionária. A Customer First veio a ser o grupo Direct, com cinco empresas nas áreas de tecnologia e mar-keting, que captou investidores como a Rio Bravo. Heise acredita que o mais difícil nos negócios é fazer a relação correta entre risco e retorno. "Um investimento de R$ 100 que pode render R$ 1 mil vale a pena, por exemplo. Mas assumir o risco de perder R$ 100 para ganhar R$ 100 não é aconselhável", diz Heise. "Não aposte em um negócio que pode pôr tudo a perder. O empreendedor não pode nunca se colocar em uma situação que pode tirá-lo do jogo." Para que isso não aconteça, Heise sempre determina a perda máxima em cada projeto, exatamente como fazem (ou tentam fazer) os operadores do mercado financeiro. "Se ultrapassar, abandonamos o projeto imediatamente."
Omar Paixão
"Um empreendedor nunca deve se colocar em uma situação que o retire do jogo "
DANIEL HEISE, DO GRUPO DIRECT Sabe calcular milimetricamente os riscos antes, durante e depois de lançar um negócio. Quando iniciou sua carreira de empreendedor, criou 12 projetos distintos. Ele estava ciente de que apenas dois dariam certo e rapidamente encerrou os restantes. Hoje, comanda um grupo que concentra cinco empresas de marketing e tecnologia. Em 2009, cresceu 15%

Omar Paixão
"Antes de começar, achava que empresário não devia satisfação a ninguém"
ROBERTO SARETTA, DA 2CALL Acreditava que a vida de empreendedor seria bem mais fácil, com horas livres e pouca pressão. Ledo engano. Sócio de três empresas na área de tecnologia e de uma rede de lavagem a seco, ele trabalha mais de 12 horas por dia, além de administrar 73 franqueados
Dinheiro não vem fácil. Uma concepção, falsa, muito difundida no Brasil é que empreender significa ter mais tempo livre e não ter que dar satisfação a ninguém. E ficar rico rapidamente. "Os empreendedores são empregados do pior patrão do mundo: eles mesmos", diz Marcelo Salim, do Ibmec do Rio de Janeiro. Nos últimos nove anos, Roberto Saretta, 28 anos, investiu em sete empresas. Entre erros e acertos, sobrou uma certeza: a rotina de empreendedor é bem diferente daquela que ele imaginava na época em que cursava administração. A ideia de ser dono do próprio tempo e não precisar responder ao chefe deu lugar a mais de 12 horas de trabalho diárias e compromissos com quatro sócios, 220 funcionários e 73 franqueados. Hoje, Saretta tem participação em quatro empresas: as redes de franquias Acquazero (de lavagem a seco), 2Call (de bluetooth marketing) e Mob2Go (aplicativos de celular), e uma loja da TIM. "Já entrei em uma reunião às 10 horas da manhã e saí às 2 horas do dia seguinte, sem resolver todos os assuntos", diz.
SAIBA MAIS
O esforço é grande e, na maioria dos casos, demora a dar resultado. O último estudo do GEM indica que 34% dos novos empreendedores acreditam que apenas depois de dez anos obterão um retorno de 20 vezes o valor investido. "Dou aula para filhos de empreendedores e eles me contam que seus pais não querem que empreendam para não sofrer o que sofreram ", afirma Marcos Hashimoto, coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper. O paulistano Daniel Barros, 35 anos, encontrou um caminho bem mais acidentado do que imaginava quando largou a advocacia e virou empresário. Abdicou de um salário de R$ 25 mil em um conceituado escritório internacional e do hobby de colecionar gravatas Hermès e relógios de grife para montar, em 2004, uma fábrica de embalagens plásticas. A Contene vai bem: fatura, por ano, R$ 12 milhões, devido à acertada estratégia de fazer produtos arrojados para a classe C. Mas Barros e o sócio, Joaquim Matias de Oliveira, mal veem o dinheiro entrar no caixa. Ainda há contas a pagar, sobretudo a dos financiamentos de maquinários. A meta é que o retorno do investimento só aconteça em 2017. Barros ficou mais de três anos sem receber rendimentos. Vendeu o carro, refinanciou a casa e viu sua poupança ser reduzida a zero. "Continuamos investindo muito para encontrar o ponto de equilíbrio", diz o ex-advogado.
Omar Paixão
"Eu ganhava R$ 25 mil. Vai demorar bastante até eu recuperar o meu padrão de vida "
DANIEL BARROS, DA CONTENE Surpreendeu-se quando descobriu que o retorno do seu investimento de R$ 10 milhões em uma fábrica de embalagens demoraria mais de dez anos. Para bancar o sonho de empreender, vendeu o carro, refinanciou a casa e viu sua poupança ser reduzida a zero
O ato de empreender tem muito mais nuances do que mostram as fachadas míticas. Em geral, os mitos se cruzam. Um empresário que começa do zero, por exemplo, provavelmente vai precisar de mais bagagem e educação do que outro, que inicia seu negócio mais capitalizado. O importante é não deixar que conceitos cristalizados inibam ou prejudiquem novas iniciativas. Para os pesquisadores do tema, o que parece importar de verdade, para dar certo, é perseguir o sonho com afinco. "Noto que os verdadeiros empreendedores vivem um eclipse pessoal e profissional. A empresa faz parte da vida deles", diz Karen Kanaan, diretora de cultura empreendedora do Instituto Endeavor. Marcelo Aidar, professor de empreendedorismo e novos negócios da FGV, relata sua experiência de dez anos estudando o assunto: "Se você for um sonhador e um realizador, trabalhar com risco calculado e não tiver vergonha do sucesso, vai ter muito mais chances de se tornar um grande empreendedor do que se ficar apegado a modelos na maioria das vezes distantes da realidade"

Mito 1 >>> EMPREENDEDOR NASCE EMPREENDEDOR
Mais que a genética, é o ambiente que determina o sucesso
Filipe Borin
AMADOR AGUIAR | BRADESCO
Foi lavrador, tipógrafo e começou como contínuo do Banco Noroeste, em Birigui. Ficou nesse emprego por 18 anos, até 1942, e então foi trabalhar no Bradesco. Virou acionista majoritário e presidente do banco apenas em 1963
Filipe Borin
JOSÉ MINDLIN | METAL LEVE
Começou como jornalista e foi advogado (formado pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) antes de fundar uma fábrica de pistões e bronzinas
Filipe Borin
JAYME GARFINKEL | PORTO SEGURO
Começou como assistente na seguradora pertencente à família aos 22 anos. Assumiu diversas funções internas e, aos 32 anos, quando seu pai morreu, herdou o negócio e teve que desenvolver seu talento empreendedor

Mito 2 >>> NÃO É PRECISO EDUCAÇÃO NEM EXPERIÊNCIA
Essa é uma idéia ultrapassada. Quem conhece o que faz vai longe
Filipe Borin
NORBERTO ODEBRECHT | ODEBRECHT
Estudou na Politécnica de Salvador. Quando adolescente, trabalhou na empresa do pai como pedreiro, serralheiro, armador, chefe de almoxarifado e responsável pelo transporte, até dominar todas as etapas de uma obra

Filipe Borin
CHIEKO AOKI | REDE BLUE TREE
Estudou direito na Universidade de São Paulo e administração na Universidade Internacional de Sofia, no Japão. Antes de entrar no ramo de hotelaria, foi à Inglaterra para fazer cursos de especialização na Universidade de Cornell
Filipe Borin
RUBENS OMETTO | COSAN
Cursou engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, trabalhou como assessor da presidência do Unibanco e foi diretor-financeiro do grupo Votorantim aos 24 anos

Mito 3 >>> DÁ PARA COMEÇAR DO ZERO
Com dinheiro no início, o caminho é menos árduo e arriscado
Filipe Borin
JOSÉ ERMÍRIO DE MORAES | VOTORANTIM
Filho de ricos fazendeiros, estudou na Colorado School of Mine, nos Estados Unidos, e transformou a empresa fundada por seu sogro, Antonio Pereira Ignácio, em um dos maiores impérios industriais do Brasil
Filipe Borin
GUILHERME PAULUS | CVC
Fundou a agência em 1972, aos 24 anos, com investimentos do ex-deputado Carlos Vicente Cerchiari (pelo então MDB). Em 1976, recebeu a participação do sócio como "presente de casamento", e assumiu o controle da empresa
Filipe Borin
ANTONIO JACOB RENNER | RENNER
Casou-se aos 19 anos com a herdeira de um rico comerciante, que mais tarde viria a ser seu sócio na empresa têxtil que deu origem ao grupo Renner

Mito 4 >>> O SUCESSO VEM SEM A AJUDA DE NINGUÉM
Empreendeder é uma atividade social, que exige uma rede de contatos

Filipe Borin
JORGE PAULO LEMANN | AB-INBEV
Com Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, investiu em participações de mais de 30 empresas. A última foi a compra da americana Anheuser-Bush, fabricante da cerveja Budweiser

Filipe Borin
EIKE BATISTA | GRUPO EBX
Sempre atrai executivos de primeira linha, como os 90 ex-funcionários da Vale, para abrir a empresa de mineração MMX ou a contratação de Francisco Gros, ex-presidente da Petrobras, do BNDES e do Banco Central, para a OGX
Filipe Borin
JOÃO ALVES DE QUEIROZ F. | HYPERMARCAS
Com dois ex-funcionários do primeiro negócio que herdou da família (Arisco), Cláudio Bergamo e Nelson Mello, criou a gigante de produtos de consumo. Bergamo é o atual presidente da empresa


Mito 5 >>> UMA IDEIA GENIAL É TUDO
No início, o que realmente conta é uma boa estratégia de vendas

Filipe Borin
SAMUEL KLEIN | CASAS BAHIA
Começou como mascate, vendendo roupas de cama, mesa e banho, e sempre oferecia boas condições para quem não podia comprar. Depois, sua grande "sacada" foi ganhar com juros nas vendas a prazo
Filipe Borin
ROLIM AMARO | TAM
Fundou uma empresa aérea na região do Araguaia e foi convidado para ser sócio-minoritário da TAM, empresa comprada por ele em 1972. Além de aviões modernos, cresceu com um excelente marketing
Filipe Borin
LUIZA HELENA TRAJANO | MAGAZINE LUIZA
O negócio da família ganhou força quando ela investiu em estratégias de marketing. Seus vendedores não ganham só pelas vendas, mas também por lucro do produto e volume das vendas à vista e a prazo. Só depois de a empresa estar consolidada inovou, com lojas virtuais em cidades pequenas

Mito 6 >>> EMPREENDEDORES CORREM MUITOS RISCOS
Na realidade, eles sabem é reduzir as chances de fracasso

Filipe Borin
MIGUEL KRIGSNER | O BOTICÁRIO
Ao perceber a oportunidade de fabricar medicamentos naturais, aliou-se a um farmacêutico e dois dermatologistas. Para expandir com segurança, adotou o sistema de franquias em 1979

Filipe Borin
JOSEPH SAFRA | BANCO SAFRA
Começou emprestando pouco e para poucos, nunca a longo prazo. Em maio de 1988, teve um ganho espetacular ao perceber que a poupança renderia mais que qualquer outra aplicação no mês por causa de dois feriados e cinco fins de semana

Filipe Borin
JOHANNES (JOÃO) GERDAU | GERDAU
Imigrante alemão, investiu em comércio, transporte e negociação de terras, para então iniciar a empresa, a Fábrica de Pregos Pontas de Paris, que foi aberta com capital de 95 acionistas


Mito 7 >>> A VIDA FICA MAIS FÁCIL
Trabalhar muito faz parte da rotina da maioria dos donos de empresas

Filipe Borin
ALAIR MARTINS | ARMAZÉNS MARTINS
Convenceu o pai a abrir um pequeno comércio, em 1953, e dos 19 aos 29 anos trabalhou 16 horas por dia, sem tirar férias

Filipe Borin
ALBERTO SARAIVA | HABIB'S
Herdeiro de uma padaria de bairro, percebeu a importância de vender barato para atrair clientes, o que exigia maior dedicação. Na primeira loja da empresa, acordava às 3 da manhã e trabalhava até 16 horas por dia

Filipe Borin
JOSÉ AURIEMO NETO | INCORPORADORA JHSF
Há mais de cinco anos não tira férias. Chega ao escritório às 8 da manhã e só vai embora às 22 horas. Define o negócio como "10% de inspiração e 90% de transpiração"


Mito 8 >>> A FORTUNA VEM DA NOITE PARA O DIA
O investimento costuma demorar a dar bons resultados

Filipe Borin
LUIZ SEABRA | NATURA
Em 1969, abriu uma pequena loja, prestando consultoria de beleza aos clientes. O capital investido equivalia a um carro popular e os primeiros resultados positivos só apareceram seis anos depois

Filipe Borin
VALENTIM DINIZ | PÃO DE AÇÚCAR
Em 1948, abriu uma doceira na Avenida Brigadeiro Luís Antonio e alguns anos depois mais duas lojas. Mas a virada do negócio só ocorreu em 1959, quando inaugurou o primeiro supermercado, um negócio diferente na época

Filipe Borin
HERCÍLIO RANDON | EMPRESAS RANDON
Com o irmão mais novo, abriu em 1949 uma oficina mecânica para motores industriais. A empresa só foi formalizada em 1953, quando começou a fabricação de peças para caminhões

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