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domingo, 21 de agosto de 2011

Sozinho ou acompanhado?


Por Daniel Tavares
Sócio: ter ou não ter? Eis a questão. Essa pergunta, parodiada do "ser ou não ser" de Hamlet, personagem da peça homônima criada pelo dramaturgo William Shakespeare, certamente não tem a mesma profundidade da tragédia inglesa, mas é essencial para qualquer empresário. Uma sociedade adequada pode ajudar um empreendimento a dar certo. Já uma parceria errada pode trazer prejuízos e, muitas vezes, rompimentos de laços familiares e de amizade. "Em princípio, toda sociedade é benéfica", diz Álvaro Armond, professor dos programas corporativos do Ibmec São Paulo. "É sempre positivo poder dividir as tarefas do dia-a-dia, ter com quem discutir antes de tomar decisões, além de ser menos perigoso assumir riscos em conjunto."
Mas, antes de se fechar uma sociedade, metas em comum precisam ser definidas, as funções de cada um no empreendimento estabelecidas e os parceiros precisam saber de antemão como será dividida a empresa caso um dia resolvam se separar.
Naldeci de Araújo, da Limpadora e Conservadora NR, toca um negócio sozinho e está feliz assim. Para ele, sua experiência como sócio de uma empresa foi única e certamente a última. Sua empreitada aconteceu em 2003 em um negócio no mesmo ramo em que atua hoje, juntamente com um amigo de longa data.
Curto-circuito
Araújo vinha da área administrativa de uma construtora e o sócio tinha uma empresa de pintura. "Sempre pediam a ele indicações de empresas de limpeza, devido ao seu trabalho com pintura, e foi assim que tivemos a idéia. Pedi demissão do meu emprego e, com um pequeno investimento, metade do bolso de cada um, abrimos o negócio", conta Araújo.
SAIBA MAIS
Segundo o empresário, os problemas começaram a surgir logo no começo, quando o seu sócio dividiu a metade dele na empresa com mais três pessoas, todos gerentes do seu negócio de pintura. Araújo continuava majoritário na limpadora, mas passou a ter quatro sócios.
"Concordei com a divisão, pois não tínhamos assinado nada que o proibisse de fazer isso, mas ficou evidente que havia cabeças demais pensando ao mesmo tempo e que eu era o único com dedicação total a esse trabalho. Os outros continuaram na empresa de pintura e não ligavam muito para a limpadora. O máximo que faziam era conseguir alguns clientes", desabafa Araújo. Outro problema, segundo o empresário, era a demora para a tomada de decisões importantes, pois todos os sócios precisavam dar palpites e geralmente havia divergência de opiniões. O empresário suportou a situação por dois anos. Segundo ele, em função da amizade pelo sócio, que é também padrinho de seu filho.
Pela "cartilha" de Armond, do Ibmec, Araújo não seguiu lições básicas, como definir previamente como seria o dia-a-dia de trabalho. E não estabeleceu que o sócio só poderia vender sua parte para ele ou para alguém de sua confiança. "Além disso, é preciso ter especial atenção com amigos ou parentes, porque o risco de perder a empresa e de romper com o sócio é muito grande", alerta Armond.
Segundo o professor, se você escolher um sócio porque visualiza nele um bom parceiro de trabalho com características que vão ajudá-lo em um negócio, tudo bem. Mas se você escolher alguém só pelo afeto, tornar-se bem-sucedido nesse caso será mais complicado e poderá colocar a relação a perder.
"Acredito que, se fôssemos somente em dois, a chance de ter dado certo seria maior. Mas tendo mais quatro sócios ficou impossível. Fui até o meu limite. Colocava em todas as reuniões o que me deixava infeliz e nada mudava", conta Araújo, que abriu uma empresa sozinho dois meses depois de sair da sociedade.
Os cinco empresários concordaram em fechar a limpadora e ninguém ficou com o nome da empresa. A divisão de clientes também foi amigável. Quem havia trazido o contato, ficava com ele. Os ex-sócios de Araújo também abriram uma nova empresa no ramo e, de parceiros, tornaram-se concorrentes. A amizade de 15 anos acabou de vez.
A vantagem do vôo solo, como conta o empresário, é que todo o resultado do trabalho vai para ele mesmo. "Não sinto que estou fazendo nem mais nem menos que ninguém e, além disso, eu mesmo posso decidir o que é melhor para o meu empreendimento", conta. A única coisa negativa de estar sozinho, segundo ele, é o excesso de trabalho, pois, para comandar tudo, Araújo trabalha mais de 14 horas por dia.
O escritório agora fica no mesmo terreno de sua casa, para facilitar o gerenciamento dos negócios e reduzir custos. No faturamento, ele também se deu bem, pois declara atualmente receber o dobro do que ganhava com a limpadora anterior. Nesses dois anos, sua empresa já cresceu 70%, afirma. O número de funcionários pulou de quatro para 20. Além de limpeza pós-obra, serviço principal de sua empresa anterior, Araújo oferece trabalhos de pintura, pequenas reformas, conservação e limpeza diária de condomínios, empresas e mansões.
Encaixe perfeito

Com bom planejamento e sintonia, a sociedade, no entanto, pode dar certo. As arquitetas e sócias Daniella Martini e Adriana Weichsler, ambas com 34 anos, da Pro.a arquitetos, são prova de que uma parceria bem estruturada só traz benefícios. Para elas, a sociedade é uma soma em suas carreiras e trouxe mais clientes para o escritório.

A história das duas começou na faculdade, quando se tornaram amigas e perceberam que tinham química para trabalhar juntas. Nos projetos realizados a quatro mãos durante o curso, sempre se deram bem. Então, quando terminaram o ensino superior, há dez anos, abriram um escritório com mais três colegas de turma.

"Nessa época, cada sócio tinha autonomia para tocar seus próprios projetos, e, caso a obra fosse grande, dividíamos entre nós todos. O interessante é que a Adri e eu nunca pegávamos nada sozinhas; no mínimo, trabalhávamos nós duas", conta Daniella. Com o tempo, os outros sócios acabaram saindo, sem brigas, e as arquitetas seguem em dupla há cinco anos.

SAIBA MAIS
Uma das receitas para essa parceria dar certo, segundo elas, é que se completam profissionalmente. Adriana prefere a parte administrativa e o desenho de projetos. Daniella gosta mais de acompanhar as obras. Mas, na hora da criação, elas juntam forças. "Nenhuma de nós tem de fazer algo de que não gosta, por isso houve esse "encaixe" entre nós", explica Daniella.

A complementaridade é um dos pontos considerados fundamentais na escolha do parceiro, segundo Armond. Mas não é suficiente para indicar o sucesso de uma sociedade. O professor do Ibmec diz que também é importante ter objetivos parecidos em relação à empresa. "Muitas vezes, um empresário quer ter um negócio apenas para complementar sua renda. Se ele tiver um sócio que queira crescer e que veja no empreendimento sua principal fonte de faturamento, pode haver muito desentendimento entre eles", explica o especialista.



Acerto das pontas

Por sorte, Daniella e Adriana também se entendem nesta questão. "Todos os anos, pensamos juntas o que queremos para o ano seguinte, e dificilmente discordamos. Nossos projetos profissionais têm total sintonia" conta Adriana.
                                                                                                                                                                           É claro que há diferenças e divergências entre elas, mas em uma década, com muita conversa e disposição para tornar o escritório bem- sucedido, isso não chegou a influenciar negativamente. Daniella prefere chegar cedo e sair cedo do trabalho.

SAIBA MAIS
Adriana, ao contrário, chega tarde e sai tarde. Quando as duas têm de estar presentes a uma reunião, fazem de tudo para marcá-la em um horário intermediário. Adriana diz que também já se acostumou com o jeito bagunceiro e mais calmo da sócia. "Só porque sou mais organizada e rápida não posso impor isso a ela. E, às vezes, sem problema nenhum, me disponho a arrumar algumas pastas e até a mesa dela", brinca.

De um lado, uma sociedade bem- sucedida; de outro, um empresário solitário e feliz. Nenhum dos dois caminhos é garantia de sucesso ou de fracasso. Em ambos os casos, tomar cuidado é fundamental, afirma o professor do Ibmec. Como diz o ditado popular, "o que é combinado não sai caro". Ou "antes só do que mal acompanhado".


Dicas para uma união harmônica

Para se abrir uma empresa em sociedade é preciso de antemão:

*Saber quais os deveres e tarefas de cada sócio no dia-a-dia da empresa

*Verificar se os projetos e as expectativas com relação ao negócio são semelhantes

*Escolher um sócio baseando-se em primeiro lugar nas afinidades profissionais. Por isso, cuidado ao escolher um parente ou amigo só pelo fato de serem pessoas com quem você tem afinidades pessoais

*Determinar como serão divididos os lucros da empresa

*Investigar se o sócio já participou de outra sociedade e, se participou, descobrir por que não deu certo.

*Decidir como será a política de vendas de cotas (se o sócio poderá vender a sua parte na empresa e em que condições)

*Definir como ficará a empresa em caso de briga ou rompimento da sociedade

*Estabelecer como ficará a empresa em caso de morte de um dos sócios

*Tudo o que for decidido com relação a essa sociedade deve ser documentado e registrado

*Se você não conseguir encontrar um parceiro com objetivos empresariais parecidos com os seus, aí sim, talvez seja o caso de pensar em um vôo solo.

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